A obesidade infantil é um desafio de saúde pública e exige atenção das famílias, das escolas e dos profissionais de saúde. Em Ribeirão Preto, quase 8 mil crianças e adolescentes de 5 a 19 anos apresentavam sobrepeso ou obesidade em 2025, segundo dados do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), da Secretaria Municipal da Saúde.
Entre as crianças de 5 a 9 anos, mais de 2,1 mil tinham sobrepeso e outras 2.134 já apresentavam obesidade. Na faixa etária dos 10 aos 19 anos, eram 3.681 adolescentes com sobrepeso e 3.276 com obesidade.
Diante desse cenário, a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou diretrizes inéditas para orientar o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes. As recomendações destacam a importância de uma abordagem integrada, com alimentação saudável, atividade física, mudanças de comportamento e acompanhamento individualizado.
Riscos à saúde
Segundo a OMS, cerca de 170 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos viviam com obesidade em 2024. A proporção nessa faixa etária quadruplicou desde 1990, passando de aproximadamente 2% para 8%.
O médico endocrinologista Matheus Schetini avalia que os números refletem falhas na promoção e na prevenção da saúde infantil, especialmente no estímulo à atividade física, à alimentação equilibrada e à redução do tempo diante de telas.
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A obesidade não afeta apenas a saúde física. De acordo com o especialista, crianças com excesso de peso também podem enfrentar discriminação, bullying e depressão. O sofrimento emocional pode levar a mudanças no comportamento alimentar e à redução da atividade física, agravando o quadro.
Entre os problemas associados à obesidade infantil estão diabetes tipo 2, gordura no fígado, hipertensão e alterações cardiovasculares. O médico alerta que o aparecimento dessas doenças cada vez mais cedo pode antecipar complicações e aumentar o risco de comorbidades ao longo da vida.
Mudanças em família
O acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento infantil é fundamental para identificar precocemente alterações no peso. Schetini destaca que o tratamento deve começar com a avaliação médica e a adoção de hábitos saudáveis, sem recorrer a dietas restritivas.
A nutricionista infantil Emily Lopes explica que a reeducação alimentar precisa envolver toda a família. Segundo ela, não é suficiente mudar a alimentação apenas da criança enquanto os demais integrantes da casa mantêm hábitos diferentes.
A experiência de Ana Delmar mostra como a atenção à rotina pode ajudar a identificar mudanças necessárias. Ao perceber que a filha, Mia, estava ganhando peso e demonstrava maior procura por carboidratos e doces, a família passou a observar os hábitos alimentares com mais cuidado.
Com orientação, Mia aprendeu a identificar os grupos alimentares e a importância de adequar a alimentação às atividades realizadas. Ela relata que passou a se sentir melhor depois de compreender como combinar os alimentos de acordo com suas necessidades.
O endocrinologista também recomenda priorizar alimentos in natura, como frutas e legumes, e reduzir o consumo de produtos processados e ultraprocessados. Envolver as crianças no preparo das refeições e experimentar novos alimentos são estratégias que podem contribuir para a construção de hábitos mais saudáveis.
Papel da escola
A escola também pode ajudar a prevenir a obesidade infantil, já que muitas preferências alimentares são construídas nos primeiros anos de vida. A nutricionista infantil Vanessa da Hora explica que atividades lúdicas permitem ensinar sobre alimentação sem pressão ou obrigação, incentivando o conhecimento e a autonomia das crianças.
A mudança de hábitos pode contribuir para ampliar a variedade de alimentos consumidos. Viviane de Lima, por exemplo, contou que o filho tinha seletividade alimentar e recusava verduras e legumes. Com orientação e incentivo, ele passou a aceitar preparações como sopa com legumes e a reconhecer que refrigerantes e sucos de caixinha não são opções saudáveis.
Schetini reforça que a prevenção deve envolver família, escola e comunidade. Para crianças com excesso de peso, ele recomenda acompanhamento médico, alimentação equilibrada, boas noites de sono e pelo menos uma hora diária de atividade física intensa, além da redução do tempo diante de celulares, televisores e videogames.
Em casos específicos, principalmente entre crianças com mais de 10 anos que não respondem às mudanças de hábitos, podem ser avaliados tratamentos farmacológicos. A cirurgia bariátrica também pode ser considerada em situações extremas, conforme a avaliação médica.
O especialista ressalta que o equilíbrio deve orientar a alimentação e que o cuidado precisa ser individualizado, com apoio multiprofissional quando necessário. Ao identificar preocupação com o peso ou os hábitos alimentares, a recomendação é procurar uma unidade de saúde para avaliar a criança e orientar o tratamento.



