A Polícia Federal concluiu a investigação sobre a queda da aeronave da Voepass, ocorrida há dois anos em Vinhedo, na região de Campinas, e apontou que uma sequência de falhas mecânicas e erros operacionais levou ao acidente que deixou 62 mortos. As informações constam em um laudo pericial que será apresentado oficialmente nesta quinta-feira (6).
Segundo o relatório, obtido pelo programa Fantástico, da TV Globo, o sistema de degelo da aeronave apresentava problemas repetidos antes mesmo do voo que terminou na tragédia. A investigação também concluiu que as falhas não foram registradas formalmente, permitindo que o avião continuasse em operação.
Sistema de degelo
De acordo com a perícia, o sistema responsável por remover o gelo acumulado nas asas apresentou falhas em pelo menos três voos anteriores realizados pela mesma aeronave. As gravações da cabine mostram que os pilotos tinham conhecimento do problema.
Ainda segundo o relatório, durante um voo entre Guarulhos e Cascavel, realizado antes do acidente, a tripulação comentou sobre o acúmulo de gelo na aeronave. Após o pouso, o comandante afirmou ao copiloto que haviam chegado vivos, indicando que a operação já havia apresentado dificuldades.
No voo seguinte, entre Cascavel e Guarulhos, o alerta de falha no sistema de degelo surgiu ainda durante a subida da aeronave. Conforme o fabricante, nessa situação o avião deveria deixar imediatamente a área de formação de gelo e permanecer em menor altitude, procedimento que, segundo a Polícia Federal, não foi adotado.
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Sequência de falhas
Quase uma hora depois, já próximo de São Paulo, os pilotos voltaram a relatar intenso acúmulo de gelo e tentaram reativar o sistema, sem sucesso. Na sequência, os computadores de bordo emitiram alertas de perda de desempenho, risco de estol e proximidade com o solo.
A investigação aponta que, em menos de um minuto, a aeronave perdeu sustentação, entrou em estol, começou a girar e caiu sobre uma área residencial em Vinhedo. O relatório também afirma que a tripulação não seguiu corretamente os procedimentos previstos para situações de falha no sistema de degelo, operação em condições severas de formação de gelo e recuperação da aeronave após a perda de sustentação.
Cultura operacional
Em entrevista à CBN, o professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da USP, James Waterhouse, afirmou que as conversas registradas na cabine reforçam as conclusões já apresentadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
Segundo o especialista, os diálogos indicam uma cultura de tolerância a problemas técnicos e de ausência de registro formal de falhas, especialmente relacionadas ao sistema de degelo, considerado um dos principais fatores de risco para aeronaves do modelo ATR.
Waterhouse ressaltou que pilotos desse tipo de aeronave são treinados para tratar a formação de gelo como uma situação de extrema gravidade e que voar em condições conhecidas de formação de gelo com o sistema de degelo inoperante representa um risco elevado para todos a bordo.
Próximos passos
Além das falhas no sistema de degelo, a Polícia Federal identificou que a aeronave foi liberada para voar mesmo apresentando defeito no limpador de para-brisa, apesar da previsão de chuva no destino.
Ao final do relatório, a investigação conclui que o acidente foi provocado pela combinação de falhas recorrentes no sistema de degelo, operação da aeronave em área de formação severa de gelo, erros na aplicação dos procedimentos de segurança e sucessivas falhas nas barreiras que deveriam impedir a ocorrência da tragédia.
A Polícia Federal apresentará oficialmente o relatório nesta quinta-feira, em coletiva de imprensa na sede da instituição em São Paulo, quando também deverá detalhar as responsabilidades criminais apontadas pela investigação.



