Divergências políticas entre familiares podem provocar discussões, afastamentos e até rompimentos de relações construídas ao longo de anos. Segundo a psicóloga clínica Simone Camargo, especialista em terapia familiar sistêmica, violência doméstica e psicologia jurídica, conflitos desse tipo têm chegado a consultórios e também ao sistema de Justiça.
A profissional, que atua como terapeuta familiar e mediadora no Ministério Público, afirma perceber uma crescente escalada desses conflitos, principalmente com a proximidade das eleições. Segundo ela, dificuldades de comunicação e a polarização social e política podem agravar as divergências dentro das famílias.
Para a especialista, quando o conflito deixa de ser administrado no ambiente doméstico e chega ao Judiciário, há uma tentativa de buscar um terceiro para determinar quem tem razão. Ela também aponta o afastamento e a interrupção da comunicação como sinais de que a divergência passou a prejudicar a relação familiar.
Conflitos familiares
De acordo com Simone, familiares podem deixar de participar de encontros e eventos que antes faziam parte da rotina e até bloquear uns aos outros nas redes sociais. Para ela, esse afastamento atinge o sentido de família como espaço de segurança, acolhimento e pertencimento.
Os grupos de WhatsApp também são apontados como pontos de atenção. A possibilidade de compartilhar opiniões, vídeos e outros conteúdos pode ampliar o conflito quando as mensagens são interpretadas como ofensas ou ataques.
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Segundo a psicóloga, esse ambiente pode transformar um debate em confronto e também afeta as crianças que convivem com essas situações. Para ela, os filhos e outros menores da família observam a maneira como os adultos lidam com opiniões diferentes e podem reproduzir esse modelo de comunicação.
Comunicação
Simone afirma que, em meio às divergências políticas, existe o risco de familiares deixarem de enxergar uns aos outros como pessoas com quem possuem vínculos e memórias afetivas e passem a identificá-los apenas pelas posições e bandeiras que defendem.
Para a especialista, é importante diferenciar a defesa de uma ideia da forma como ela é apresentada ao outro. A terapia familiar e a mediação podem ajudar quando a comunicação já está prejudicada e o conflito começa a causar impactos nos relacionamentos.
A orientação é que as pessoas possam defender diferentes ideias sem transformar a divergência em uma disputa sobre quem está certo. Nesse processo, a comunicação, a tolerância e o respeito são apontados como elementos importantes para preservar os vínculos.
Mediação
Segundo Simone, o mediador atua de maneira imparcial e não tem como objetivo determinar qual dos lados está certo ou errado. O trabalho envolve permitir que cada pessoa apresente seu posicionamento e, principalmente, que haja espaço para o outro escutar.
A profissional destaca que não é necessário concordar com alguém para reconhecer e respeitar sua posição. Para ela, pessoas de uma mesma família podem seguir caminhos e ter pensamentos diferentes, desde que exista respeito e disposição para ouvir.
Simone também reforça que as eleições passam, enquanto os vínculos familiares permanecem. Por isso, a recomendação é preservar os encontros, as celebrações e o sentimento de pertencimento, evitando que as divergências políticas comprometam relações construídas ao longo da vida.



