Um dos 16 profissionais indiciados pela Polícia Federal pelo acidente aéreo que matou 62 pessoas em Vinhedo, em agosto de 2024, o ex-diretor de manutenção da Voepass, Eric Cônsoli, é um dos sócios de uma empresa de serviços aeronáuticos aberta em Ribeirão Preto cerca de um ano após a tragédia.
Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo, a empresa foi criada em julho de 2025. A companhia oferece serviços auxiliares de transporte aéreo executivo, como estacionamento e abastecimento de aeronaves, importação de peças sob encomenda e manutenção de seguro aeronáutico. A empresa não opera voos.
Atuação no setor
Além de Eric Cônsoli, outros dois profissionais que atuavam na Voepass continuaram trabalhando no setor aéreo após a tragédia. O engenheiro mecânico aeronáutico Thiago Passuti Morani, que era inspetor-chefe da companhia e responsável por assinar liberações técnicas, atua atualmente como gerente de planejamento e aeronavegabilidade em uma empresa que presta serviços para outras companhias aéreas.
Já Derlino de Campos Figueiredo, que trabalhava como despachante operacional de voo na Voepass até abril de 2025, exerce atualmente a mesma função em uma empresa de transporte aéreo de cargas com sede em Campinas.
Questionada sobre a relevância da nova empresa para as investigações, a Polícia Federal informou que os fatos investigados estão restritos ao acidente aeronáutico. A reportagem também procurou a RP Aviation para saber se outros ex-funcionários da Voepass trabalham na companhia e se existe intenção de obter certificação para operar voos, mas não recebeu resposta até o momento.
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Investigação
Os 16 indiciados pela Polícia Federal prestaram depoimento e não são considerados foragidos. Por determinação judicial, porém, estão proibidos de deixar o Brasil, e os nomes foram incluídos nos sistemas de controle de imigração para impedir saídas não autorizadas.
Segundo a investigação, ao menos um dos investigados está temporariamente no exterior, mas se comprometeu a retornar ao país quando for convocado. O delegado responsável pelo caso afirmou que não houve necessidade, até o momento, de decretar prisões preventivas, já que as medidas cautelares determinadas pela Justiça estão sendo cumpridas.
A Polícia Federal e o Cenipa apontaram uma sucessão de fatores meteorológicos, falhas técnicas e conduta operacional insuficiente como causas do acidente. A Polícia Federal também identificou uma cultura de não reporte dentro da empresa, com falhas críticas, especialmente relacionadas ao sistema de degelo, sendo retiradas dos registros oficiais para evitar a permanência de aeronaves em solo.
Ao fim de quase dois anos de investigação, a Polícia Federal indiciou 16 profissionais, entre presidente da companhia, diretores, gerentes, mecânicos e despachantes operacionais. Eles respondem pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, com agravamento pelas mortes.
A Voepass teve o Certificado de Operador Aéreo cassado definitivamente pela Anac em junho de 2025. Com a conclusão das investigações, o caso está sob análise do Ministério Público Federal, que deverá decidir sobre o oferecimento de denúncia à Justiça.
Além das responsabilidades criminais, a Polícia Federal apresentou representações administrativas à Anac. Segundo a investigação, inspetores da agência tinham conhecimento de problemas crônicos no sistema de degelo da aeronave acidentada meses antes da queda, mas não suspenderam as operações. Os autos foram encaminhados à Procuradoria da República no Distrito Federal para apuração de eventuais crimes de prevaricação ou improbidade administrativa por parte do órgão regulador.



