As vendas do varejo alimentar brasileiro cresceram nas duas primeiras semanas completas de outubro, após a restrição às plataformas de apostas, conhecidas como bets. Levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) aponta alta de 6,5% na primeira semana e de 6,3% na segunda, na comparação com os mesmos períodos do ano passado.
No interior do país, o crescimento foi de 5,6% nas duas semanas analisadas. Segundo a entidade, o avanço foi observado em diferentes formatos de comércio, como supermercados, atacarejos e mercearias.
Em entrevista à CBN Ribeirão, o professor de economia e administração Christian Gânzert afirmou que o dinheiro que deixou de ser destinado às apostas pode ter voltado para o orçamento das famílias e contribuído para o aumento do consumo. No entanto, ele ressalta que ainda não existem estudos que comprovem uma relação direta entre a restrição às bets e o crescimento das vendas.
Consumo familiar
De acordo com o economista, a Abras identificou um crescimento de 6,5% na primeira semana de outubro. Desse percentual, aproximadamente 2,5 pontos percentuais já eram esperados em razão do desempenho do setor nos últimos 12 meses. Os outros quatro pontos podem estar relacionados a diferentes fatores, como iniciativas de apoio social do governo e a circulação de recursos que antes eram destinados às apostas.
O levantamento também aponta aumento nas vendas de produtos essenciais, como arroz, óleo, macarrão e café. Para Gânzert, a restrição às plataformas pode ter contribuído para que parte do dinheiro das famílias fosse direcionada novamente ao consumo de alimentos e outros itens básicos.
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O professor também citou dados do Banco Central que indicaram uma queda inicial de 10% nas transações feitas por Pix. Segundo ele, essa redução não significa necessariamente uma diminuição do consumo, já que parte dos consumidores pode ter recorrido a outras formas de pagamento, como o cartão de crédito e compras parceladas.
Gânzert destacou ainda que cerca de 83 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o que representa um obstáculo para a recuperação financeira das famílias. Na avaliação dele, parte dos recursos que deixaram de ser destinados às apostas poderia ser utilizada para quitar dívidas e aliviar o orçamento doméstico.
Impacto econômico
Durante a entrevista, o economista também comentou um estudo da Universidade de São Paulo que estimou que as plataformas de apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025.
Para ele, a restrição às bets pode contribuir para melhorar a circulação de dinheiro na economia, mas não resolve, isoladamente, os problemas econômicos do país. Gânzert apontou o endividamento das famílias, o achatamento dos salários e a falta de investimentos como desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Na avaliação do professor, é necessário criar condições para atrair investimentos, ampliar a abertura de postos de trabalho e melhorar a renda da população. Ele também defendeu medidas para reduzir os juros e estimular a aplicação de recursos no mercado de bens e serviços.
Gânzert reconheceu que a restrição às plataformas legais não elimina as apostas ilegais, mas considerou que o posicionamento do governo contra esse tipo de atividade pode ajudar a reduzir os impactos sobre as famílias. Ele também destacou que o problema deve ser tratado como uma questão de saúde pública, além dos efeitos econômicos.
O economista recomenda acompanhar os indicadores dos próximos meses para verificar se o crescimento das vendas nos supermercados vai se manter. Ele ponderou que o fim do ano costuma trazer maior circulação de dinheiro por causa do pagamento do décimo terceiro salário e do adicional de férias, mas alertou que o cenário econômico ainda exige cautela.



