Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto investiga o uso de uma técnica de estimulação cerebral não invasiva, combinada à educação nutricional, para ajudar mulheres com obesidade a controlar o desejo intenso por comida. Os primeiros resultados do estudo piloto foram promissores e publicados em uma revista científica internacional.
De acordo com a nutricionista e professora Marina Rodrigues Giuliani, responsável pela pesquisa, as participantes que receberam a estimulação ativa apresentaram redução tanto do desejo momentâneo por comida quanto daquela vontade mais habitual, que não está necessariamente relacionada à fome física. A melhora foi observada após a intervenção e se manteve durante o acompanhamento de até seis meses.
A professora explica que o desejo intenso por comida pode persistir mesmo depois de uma refeição e não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou força de vontade. A pesquisa busca entender como a atividade cerebral pode influenciar esse comportamento e contribuir para novas estratégias de tratamento da obesidade.
Estimulação elétrica
A técnica utilizada no estudo é chamada de estimulação transcraniana por corrente contínua. O procedimento é não invasivo e utiliza dois eletrodos posicionados no couro cabeludo para aplicar uma corrente elétrica de baixa intensidade. Segundo a professora, a aplicação é imperceptível e indolor.
A estimulação foi direcionada ao córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, região do cérebro relacionada ao controle inibitório, à tomada de decisões e ao controle de impulsos. O objetivo é modular a atividade dessa área para auxiliar no controle do desejo por comida.
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A técnica, porém, não é proposta como um tratamento isolado. No estudo, ela foi combinada à educação nutricional, com orientações e estratégias para melhorar o conhecimento e a percepção das participantes sobre a alimentação. A professora ressalta que o tratamento da obesidade exige uma abordagem multidisciplinar, que também pode envolver acompanhamento psicológico.
Educação nutricional
Outro resultado considerado importante pela equipe foi a melhora observada entre as participantes que receberam a estimulação simulada. Mesmo sem a aplicação ativa da corrente elétrica, elas também apresentaram resultados positivos com o acompanhamento e as orientações nutricionais.
As participantes não tiveram perda de peso durante o estudo, mas melhoraram a educação alimentar. Para a professora, o resultado reforça a importância das mudanças de comportamento e do acompanhamento nutricional no tratamento da obesidade.
O estudo piloto contou com 22 mulheres, número considerado pequeno pela pesquisadora. O próximo passo é realizar pesquisas com mais participantes para confirmar os resultados, definir o protocolo e aprofundar a investigação sobre o potencial da estimulação cerebral como estratégia complementar.
Próximas etapas
A equipe também pretende investigar a estimulação magnética, outra técnica de modulação da atividade neuronal. Segundo Marina Rodrigues Giuliani, ela é mais focal e consegue atingir regiões mais profundas do cérebro em comparação com a estimulação elétrica utilizada no estudo inicial.
A nova etapa deve ampliar o público da pesquisa, que inicialmente incluiu apenas mulheres. A equipe pretende recrutar homens, além de possibilitar a participação de novas voluntárias. A escolha inicial por mulheres, segundo a professora, buscou reduzir possíveis vieses na interpretação dos resultados e considerou a maior presença do público feminino nos casos de obesidade de graus 1 e 2, foco da investigação.
A professora explica que a estimulação cerebral já é utilizada no tratamento de outras condições, como depressão, doença de Parkinson e transtorno obsessivo-compulsivo. No entanto, a pesquisa da USP busca avaliar especificamente sua contribuição para o controle do desejo por comida e para o tratamento da obesidade.
A obesidade é uma doença crônica, e a pesquisadora destaca a importância de medidas que ajudem a evitar sua evolução, inclusive desde o estágio de sobrepeso. A estimulação cerebral ainda precisa passar por novas etapas de investigação antes de ser considerada uma alternativa disponível na prática clínica.



