Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto revelou que mais de um terço da população em situação de rua nunca passou por um exame oftalmológico. A pesquisa também apontou que outra parcela semelhante estava há mais de cinco anos sem qualquer avaliação da visão.
O levantamento investigou a saúde ocular de pessoas em situação de vulnerabilidade e identificou obstáculos que vão além da oferta de serviços médicos, como falta de documentos, dificuldade de acesso, estigma social e prioridades ligadas à própria sobrevivência.
Segundo o professor João Marcelo Furtado, um dos autores da pesquisa, a maioria dos problemas encontrados poderia ser evitada ou facilmente tratada caso essa população tivesse acesso mais frequente e qualificado aos serviços de oftalmologia.
Falta de acesso
De acordo com o pesquisador, o principal problema identificado foi a ausência de óculos para pessoas que precisavam de correção visual, tanto para enxergar de longe quanto para perto.
O estudo apontou que muitos participantes jamais haviam realizado um exame oftalmológico ao longo da vida. A pesquisa também revelou que casos considerados simples acabavam sem tratamento por falta de acompanhamento médico adequado.
Entre os participantes mais velhos em situação de rua, os pesquisadores identificaram uma incidência maior de catarata sem tratamento quando comparada à população geral.
Sistema permanente
Durante as visitas aos centros de acolhimento, os pesquisadores forneceram óculos gratuitamente para participantes que necessitavam de correção visual. No entanto, parte das pessoas já não utilizava os óculos semanas depois por perda, roubo ou quebra.
Segundo João Marcelo Furtado, essa constatação levou os pesquisadores à conclusão de que campanhas pontuais e mutirões não são suficientes para resolver o problema de forma permanente. A proposta defendida pelo estudo é a criação de um sistema contínuo de atendimento oftalmológico para a população em situação de rua, permitindo acompanhamento frequente e reposição de equipamentos quando necessário.
Qualidade de vida
A pesquisa contou com a participação de 518 pessoas em situação de rua. Destas, 491 aceitaram participar e 461 concluíram todas as etapas dos exames oftalmológicos realizados pela equipe.
Além da coleta de dados, os pesquisadores também encaminharam casos mais graves para atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o professor, melhorar a visão dessa população pode representar mais autonomia e qualidade de vida. O estudo também destacou a importância do apoio de centros de acolhimento, organizações sociais e servidores públicos para garantir a adesão da população atendida às avaliações médicas e aos atendimentos oferecidos.



