Uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) identificou que a combinação de uma dose baixa de canabidiol (CBD) com um antidepressivo pode antecipar os efeitos contra o estresse. Nos experimentos realizados com camundongos, a associação apresentou resultados em sete dias, enquanto o antidepressivo utilizado isoladamente costuma levar de duas a três semanas para produzir efeito semelhante.
O estudo é coordenado pela professora Aline Cristina de Campos, do Departamento de Farmacologia da instituição. Segundo a pesquisadora, a combinação das substâncias ajudou a recuperar a atividade do córtex pré-frontal, região do cérebro relacionada ao funcionamento emocional e à percepção do ambiente, que pode ter sua atividade reduzida em situações de estresse e em transtornos depressivos.
Os resultados abrem uma possibilidade para o desenvolvimento de tratamentos de ação mais rápida, mas ainda não comprovam que a combinação tenha o mesmo efeito em seres humanos. A pesquisadora ressalta que são necessários novos experimentos e estudos clínicos controlados para avaliar a segurança e a eficácia da associação.
Resposta cerebral
De acordo com Aline Cristina de Campos, o estresse pode modificar o funcionamento de áreas cerebrais envolvidas nas emoções. O córtex pré-frontal é especialmente vulnerável a situações de estresse intenso ou prolongado, e sua atividade reduzida está associada a quadros de depressão.
Nos experimentos, a associação do canabidiol com o antidepressivo ajudou a reverter essa redução de atividade. A hipótese dos pesquisadores é que o CBD potencialize os efeitos do antidepressivo sobre a neuroplasticidade, processo relacionado à capacidade de adaptação e reorganização do cérebro.
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A equipe também identificou que a dose baixa de canabidiol foi a que apresentou o efeito observado. Segundo a pesquisadora, os canabinoides podem apresentar uma relação entre dose e resposta em formato de U invertido: doses maiores não necessariamente ampliam o efeito terapêutico e podem fazer com que ele desapareça.
Próximas etapas
Além da demora para produzir efeitos, os antidepressivos podem provocar reações adversas nas primeiras semanas de tratamento, como náuseas, dores de cabeça e alterações no sono. A pesquisadora explica que a associação com uma dose baixa de CBD também poderá ser investigada para verificar se permite reduzir a quantidade de antidepressivo necessária e, consequentemente, diminuir esses efeitos indesejados.
O grupo de pesquisa relatou ainda resultados promissores em três pacientes com depressão refratária, mas os dados não foram publicados e não são suficientes para comprovar a eficácia do tratamento. A professora reforça que será necessário ampliar o número de participantes e realizar estudos controlados com placebo antes de qualquer conclusão sobre o uso clínico da combinação.
A pesquisadora também alerta que os produtos à base de canabidiol disponíveis no mercado não são equivalentes. No estudo, foi utilizado um canabidiol isolado, com pureza de 99,9%, o que impede extrapolar automaticamente os resultados para outros produtos que contenham diferentes substâncias.
Alerta contra automedicação
A professora destaca que o canabidiol é diferente do tetrahidrocanabinol (THC), outro composto presente na cannabis. Segundo ela, o THC pode provocar alterações de percepção e efeitos psicotomiméticos em algumas pessoas, dependendo da dose, enquanto o estudo investigou especificamente o uso de CBD isolado.
A pesquisadora ressalta que os resultados ainda pertencem à etapa de pesquisa científica e não devem ser interpretados como recomendação para combinar canabidiol e antidepressivos. Alterações nas doses ou na medicação devem ser feitas somente com orientação médica.
O objetivo da equipe é avançar para novas etapas de investigação, com resultados avaliados por outros cientistas antes de serem apresentados como possíveis aplicações clínicas. Segundo Aline Cristina de Campos, a pesquisa básica é fundamental para identificar mecanismos e abrir caminhos para tratamentos que, no futuro, possam beneficiar pacientes com depressão e ansiedade.



