O Brasil pode enfrentar um déficit de até 235 mil professores na educação básica até 2040, segundo projeção do Semesp, sindicato que representa entidades mantenedoras de instituições de ensino. O cenário, chamado de “apagão de professores”, é associado à dificuldade de atrair e manter profissionais na carreira.
Para o sociólogo e professor Jorge Rabelo Mendes, autor do livro “Sala de Professores – Crônicas do Dia”, a falta de políticas públicas de valorização do magistério está entre as principais causas do problema. Ele afirma que os baixos salários, o desprestígio social e a precarização dos contratos afastam os jovens da profissão e levam profissionais qualificados a buscar outras áreas.
Segundo o professor, a situação já é percebida nas escolas. Ele relata que, na unidade em que trabalha, há momentos em que faltam docentes para disciplinas como Física e Química, deixando estudantes sem aulas.
Carreira desvalorizada
Jorge Rabelo Mendes afirma que quase metade dos professores da rede pública estadual trabalha em condições de contratação precária, sem estabilidade. Muitos são admitidos por períodos determinados, de dois a quatro anos, o que, na avaliação dele, desregulamenta a carreira e cria diferenças entre profissionais que atuam na mesma escola.
“Os que são contratados acabam trabalhando mais e recebendo menos. Eles têm menos direitos do que os outros professores”, afirmou.
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O sociólogo também aponta que as salas de aula lotadas e a falta de incentivos à qualificação contribuem para o desgaste da profissão. De acordo com ele, professores que buscam mestrado e doutorado encontram dificuldades para conseguir licenças e, mesmo depois de concluir os estudos, recebem reajustes que considera insuficientes. Para o professor, a valorização precisa envolver uma reestruturação completa da carreira, com melhores salários e condições para que os profissionais continuem estudando.
Federalização do ensino
Como alternativa para enfrentar o problema, Jorge defende que o governo federal assuma uma responsabilidade maior pela educação básica. Ele cita as escolas federais e os Institutos Federais como exemplos de instituições que, na avaliação dele, oferecem melhores condições de trabalho e de atendimento aos estudantes.
O professor destaca que essas unidades costumam ter uma carga horária menor em sala de aula e oferecem acompanhamento individualizado a alunos com dificuldades, inclusive no contraturno. Para ele, esse modelo contribui para o desempenho dos estudantes.
Jorge também avalia que municípios e estados enfrentam limitações financeiras e políticas para promover mudanças estruturais nas redes de ensino. Ele afirma que estudantes chegam ao ensino médio com dificuldades de leitura, escrita e interpretação de texto, o que compromete a continuidade do aprendizado.
O sociólogo ressalta que a ampliação do acesso à escola nas últimas décadas não foi acompanhada, na mesma proporção, por investimentos na qualidade do ensino. Segundo ele, é necessário que as políticas educacionais sejam tratadas como um projeto de Estado, e não apenas como iniciativas de cada governo.
As experiências e os debates sobre a realidade das escolas também são abordados no livro “Sala de Professores – Crônicas do Dia”, resultado de 25 anos de atuação de Jorge Rabelo Mendes no ensino médio. A obra reúne reflexões sobre o cotidiano dos professores e as dificuldades enfrentadas dentro das salas de aula.



