Uma pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto identificou um novo potencial da fluoxetina, medicamento amplamente utilizado no tratamento de depressão e transtornos de ansiedade. O estudo mostrou que a substância pode reduzir a resposta inflamatória provocada pela Covid-19.
Os pesquisadores investigaram o comportamento dos macrófagos, células de defesa do organismo, quando expostos a partículas inativadas do SARS-CoV-2. O trabalho concluiu que a fluoxetina não elimina o vírus, mas impede que ele provoque uma resposta inflamatória intensa, reduzindo a agressividade da doença.
A descoberta pode auxiliar futuras decisões clínicas e abrir caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos anti-inflamatórios voltados para infecções virais. A pesquisa foi conduzida pelo grupo de estudos em Biotecnologia e Imunoquímica de Lipídios da USP de Ribeirão Preto.
Inflamação
Em entrevista à CBN Ribeirão Preto, o pesquisador Carlos Sorge explicou que estudos clínicos realizados durante o auge da pandemia já indicavam que pacientes que utilizavam fluoxetina apresentavam menor risco de desenvolver formas graves da Covid-19.
Segundo ele, havia dúvidas sobre como essa proteção acontecia e se ela estava ligada apenas à atuação do medicamento no sistema nervoso central. A pesquisa desenvolvida em Ribeirão Preto buscou justamente entender o mecanismo responsável por esse efeito.
Leia também
Os pesquisadores descobriram que a fluoxetina atua diretamente nos macrófagos, células responsáveis pela defesa do organismo. O medicamento altera a membrana dessas células e impede que o vírus provoque uma resposta inflamatória intensa.
Proteção
Carlos Sorge afirmou que a fluoxetina funciona como uma espécie de barreira adicional de proteção contra a inflamação causada pelo coronavírus. Segundo ele, o medicamento “blinda” as células de defesa, dificultando o reconhecimento do vírus e reduzindo o processo inflamatório.
O pesquisador explicou que esse efeito é importante principalmente nos casos de Covid-19, já que as formas graves da doença estão relacionadas à hiperinflamação pulmonar. O controle dessa resposta inflamatória pode diminuir complicações e necessidade de oxigênio. Ele destacou ainda que o estudo pode ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos baseados na fluoxetina, mas sem os efeitos relacionados ao tratamento de depressão, permitindo o uso mais amplo da substância no combate a inflamações.
Novos estudos
A pesquisa agora avança para novas etapas envolvendo outras infecções virais e bacterianas. Segundo Carlos Sorge, os pesquisadores já estudam os efeitos da substância em pacientes com influenza e também em quadros de sepse, conhecida como infecção generalizada.
O docente afirmou que a pandemia acelerou pesquisas na área médica e abriu novas possibilidades para o reaproveitamento de medicamentos já conhecidos. Segundo ele, o estudo ajuda a compreender como substâncias já utilizadas podem ter outras aplicações terapêuticas. Carlos Sorge também destacou que a pesquisa realizada em Ribeirão Preto já tem repercussão internacional e pode contribuir para orientar médicos no manejo de pacientes com doenças concomitantes e tratamentos contínuos.



