A cobertura vacinal contra a poliomielite no Brasil está em 88,28% neste ano, abaixo da meta de 95% estabelecida pelas autoridades de saúde. Embora o país não registre casos da doença causados pelo vírus selvagem desde 1989 e tenha recebido, em 1994, a certificação de erradicação da pólio nas Américas, a queda na imunização mantém o risco de reintrodução do vírus.
A poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, é uma doença viral que pode atingir o sistema nervoso e provocar paralisia permanente. O vírus ainda circula em países como Afeganistão e Paquistão, o que aumenta a preocupação com a possibilidade de voltar a atingir regiões onde a doença foi eliminada.
O médico infectologista do Grupo São Lucas, Cláudio Penido Campos Júnior, alerta que a cobertura vacinal abaixo do recomendado deixa parte da população suscetível à doença. Segundo ele, a tendência de queda nos índices de imunização é um dos principais motivos de preocupação.
Risco de paralisia
A transmissão da poliomielite ocorre principalmente pelo contato com água ou alimentos contaminados por fezes e também pela via oral. A maioria das infecções não apresenta sintomas. Em uma parcela dos pacientes, porém, pode ocorrer um quadro viral com febre baixa e diarreia.
Em cerca de 1% dos casos, o vírus pode atingir o sistema nervoso e provocar uma paralisia flácida, que pode evoluir de forma ascendente. Segundo o infectologista, não existe cura para essa manifestação da doença. Quando há comprometimento do sistema respiratório, o quadro pode levar à morte por insuficiência respiratória.
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“É uma neuropatia, é uma paralisia ascendente, o que se conhece como paralisia flácida, que é um contexto extremamente grave. Primeiro porque não tem cura e, segundo, porque alguns casos, cuja evolução envolve o sistema respiratório, podem até levar à morte”, explicou Cláudio Penido Campos Júnior.
O médico destaca que, como muitas infecções são assintomáticas, a identificação dos casos e o controle da circulação do vírus podem ser dificultados. Por isso, a vacinação é considerada a principal forma de prevenção.
Queda na vacinação
Entre os fatores que ajudam a explicar a baixa cobertura, o infectologista aponta a falta de percepção do risco por parte das gerações mais jovens. Como a doença deixou de fazer parte da realidade de muitas famílias brasileiras, parte da população não reconhece a importância de manter a vacinação em dia.
Outro problema é a hesitação vacinal, alimentada por notícias falsas e informações equivocadas sobre a segurança das vacinas.
“Como as pessoas não conhecem mais a doença, especialmente as gerações mais jovens, um pouco do receio, do medo do acometimento, do adoecimento se perdeu. E o outro ponto é a hesitação vacinal, que se desenvolve a partir de fake news, de informações equivocadas sobre a segurança da vacinação”, afirmou.
O especialista também recomenda que a população procure informações em fontes oficiais dos órgãos de saúde. Em caso de dúvidas sobre orientações ou possíveis efeitos das vacinas, a recomendação é buscar atendimento em uma unidade de saúde.
Esquema vacinal
Atualmente, o calendário nacional de vacinação contra a poliomielite utiliza a vacina inativada, conhecida como VIP, aplicada por injeção. O esquema regular prevê cinco doses: aos 2, 4 e 6 meses de idade, com reforços aos 15 meses e aos 4 anos.
O infectologista ressalta que crianças que perderam alguma dose podem atualizar a caderneta de vacinação. A interrupção do calendário não impede a continuidade do esquema.
Pais e responsáveis que não sabem se a criança recebeu todas as doses ou que perderam a caderneta devem procurar uma unidade de saúde. Os profissionais poderão verificar o histórico e orientar sobre a necessidade de complementação.
Segundo o médico, a única restrição relevante à aplicação da vacina está relacionada a casos específicos de reação de hipersensibilidade a alguma dose ou componente. Fora dessas situações, não há contraindicação de importância epidemiológica.
O infectologista reforça que a vacinação é a única forma de prevenir a doença e suas complicações. Isso porque, depois que a infecção acontece e surgem sintomas neurológicos, não há tratamento antiviral capaz de impedir a progressão para a paralisia.



