O excesso de chuva nos últimos meses tem atrasado a safra 2026/2027 de cana-de-açúcar e provocado impactos no setor sucroenergético da região de Ribeirão Preto. A umidade elevada dificulta a colheita, prejudica a qualidade da matéria-prima e aumenta os custos de produção. Com o calendário comprometido, parte da cana poderá ficar nos canaviais para ser colhida somente no próximo ciclo.
Em Ribeirão Preto, setembro registrou 100 milímetros de chuva, volume 44% acima da média histórica para o mês. Os reflexos já são sentidos nas lavouras e nas usinas. Em uma unidade de Sertãozinho, por exemplo, a movimentação continua intensa, em ritmo diferente do observado no mesmo período do ano passado, quando a colheita já estava perto do fim.
Antônio Eduardo Tonielo Filho, diretor de cinco usinas no estado de São Paulo, afirma que aproximadamente 20% dos canaviais ainda não foram colhidos. A previsão é estender a safra por cerca de um mês, com encerramento entre os dias 20 e 22 de dezembro, caso as condições climáticas permitam.
O atraso também afeta a produção industrial. Segundo Tonielo Filho, em outubro a fabricação de açúcar e etanol foi aproximadamente 30% menor porque as usinas não conseguiram processar a quantidade esperada de cana.
Qualidade da cana
Além de dificultar a entrada de máquinas e caminhões nos canaviais, o solo encharcado faz com que a cana colhida chegue à indústria com maior quantidade de impurezas, como terra, palha e restos vegetais. Isso exige mais etapas de limpeza, eleva os custos e pode prejudicar a qualidade do açúcar e a produção de etanol.
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Outro impacto está relacionado ao teor de açúcar da planta. O excesso de água pode reduzir a concentração de açúcares recuperáveis, indicador conhecido no setor como ATR, que ajuda a determinar quanto açúcar e etanol podem ser produzidos a partir de cada tonelada de cana.
O engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Mauro Alexandre Xavier, explica que a distribuição das chuvas influencia diretamente a produtividade. Embora a umidade possa favorecer o desenvolvimento dos canaviais que serão colhidos no próximo ciclo, o excesso de água prejudica a concentração de açúcar na cana madura e dificulta o transporte da matéria-prima até as usinas.
O pesquisador também alerta para os danos que a entrada de máquinas em terrenos muito úmidos pode provocar. A circulação de colhedoras e caminhões pode compactar o solo e comprometer a soqueira, estrutura que permanece no campo depois do corte e dá origem à próxima brotação.
Por isso, acelerar a colheita em condições inadequadas pode prejudicar não apenas a safra atual, mas também a produtividade dos próximos ciclos.
Safra prolongada
Com o calendário alterado, o setor já considera a possibilidade de deixar parte da cana nos campos para a colheita em 2027. Estimativas apontam que entre 30 milhões e 37 milhões de toneladas podem ser transferidas para a próxima safra no Centro-Sul do país.
Na região de Ribeirão Preto, a expectativa é que a colheita avance pelo mês de dezembro, com possibilidade de parte da produção ficar para o ano que vem.
Para compensar o volume acumulado, as usinas também estudam antecipar o início da próxima moagem. Tradicionalmente, a safra começa entre o início e a metade de abril, mas a previsão é iniciar os trabalhos já em março de 2027.



