O Brasil chegou a 84,2 milhões de pessoas inadimplentes, o maior número da série histórica da Serasa. O cenário preocupa também em Ribeirão Preto, onde mais da metade dos CPFs tem dívidas atrasadas ou negativadas. Para o economista Maurílio Benite, porém, é importante diferenciar quem tem compromissos financeiros em dia de quem não consegue pagar as contas.
Segundo o especialista, 84% dos brasileiros têm algum tipo de endividamento, mas isso não significa necessariamente dificuldade financeira. O percentual inclui, por exemplo, pessoas que utilizam cartão de crédito ou têm financiamento e mantêm os pagamentos em dia. Já cerca de 30% da população tem dívidas vencidas com instituições financeiras, comércio ou relacionadas a impostos.
“Hoje em dia, em função inclusive da bancarização promovida principalmente pelas fintechs e pelos bancos por aplicativo, a gente teve um aumento muito grande do acesso das pessoas à compra parcelada, por exemplo, via cartão de crédito”, explica Benite.
Juros e planejamento
Entre os fatores que agravam a inadimplência, o economista destaca as altas taxas de juros, a falta de controle do orçamento doméstico e a ausência de reservas financeiras para lidar com imprevistos, como desemprego e queda de renda.
De acordo com Benite, muitas pessoas não acompanham a relação entre o que recebem e o que gastam. Com o acesso facilitado ao crédito, os compromissos se acumulam e, quando uma parcela atrasa, os juros tornam a dívida cada vez mais pesada.
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O especialista ressalta que ter dívidas não é necessariamente um problema. Um financiamento imobiliário, por exemplo, pode representar a aquisição de um patrimônio, desde que as parcelas sejam pagas em dia.
“Você pode estar endividado em 50% da sua renda, mas estar vivendo e não estar atrasado. Então, isso não é exatamente um problema quando a gente consegue enxergar a diferença entre o insolvente, ou seja, aquele que não está pagando aquilo que contraiu como dívida, e o solvente”, afirma.
Perfil dos devedores
Segundo o economista, a classe média é o grupo que mais acumula dívidas no país. São pessoas com renda mensal entre R$ 5 mil e R$ 10 mil e endividamento médio de aproximadamente R$ 15 mil. Nesse grupo, as dívidas estão mais relacionadas ao consumo. Já entre as famílias de baixa renda, os compromissos financeiros costumam envolver necessidades básicas, como alimentação e moradia.
Benite também chama a atenção para a falta de educação financeira e para a repetição de programas de renegociação de dívidas. Na avaliação dele, iniciativas de recuperação de crédito ajudam momentaneamente, mas não resolvem o problema se os consumidores não mudarem os hábitos de consumo.
O economista ainda aponta que o uso do cartão de crédito e os limites elevados oferecidos pelas instituições financeiras podem contribuir para o descontrole. Ele cita taxas de juros que chegam a 400% ao ano no cartão de crédito e avalia que o custo do dinheiro no Brasil acelera o crescimento das dívidas.
Cuidados no fim do ano
Com a proximidade do pagamento do 13º salário, Benite recomenda atenção ao orçamento. O dinheiro extra precisa ser considerado junto com as despesas que chegam no fim e no começo do ano, para evitar novos compromissos que não cabem na renda.
O economista também diferencia gastos de investimentos. Enquanto os gastos estão relacionados ao consumo e à manutenção pessoal, os investimentos envolvem a compra de equipamentos ou ferramentas que podem gerar renda, como uma máquina de costura, ferramentas de trabalho ou um veículo utilizado profissionalmente.
Para ele, o endividamento de consumo, especialmente com produtos e serviços supérfluos, está entre as principais causas do descontrole financeiro. A orientação é acompanhar os ganhos e despesas, evitar compras que comprometam o orçamento e manter as parcelas em dia.



