Depoimentos de dois ex-diretores da Voepass revelaram versões diferentes sobre quem era responsável pelo comando da manutenção das aeronaves na época da queda do voo 2283, em Vinhedo, no interior de São Paulo. Os documentos fazem parte do processo judicial que investiga o acidente que matou 62 pessoas, em agosto de 2024, e tiveram o sigilo retirado nesta semana.
Marcel Moura, ex-diretor de Operações, e Carlos Alberto Costa, ex-diretor de Manutenção, prestaram depoimento à Polícia Federal. As declarações vieram à tona após a liberação dos documentos da ação penal, obtidos pelo portal G1.
Marcel afirmou que parte da responsabilidade operacional havia sido transferida ao então piloto-chefe Rafael Limonge. Segundo ele, Limonge passou a atuar em uma diretoria interna ligada ao Centro de Controle Operacional, com funções relacionadas ao acompanhamento diário dos voos.
Carlos Alberto apresentou outra versão. Ele disse que perdeu o controle sobre o Centro de Controle de Manutenção meses antes do acidente, quando o setor passou a responder à estrutura comandada por Marcel Moura. O ex-diretor também afirmou que Juliano Flores Pacheco, gerente do centro e superior direto dos mecânicos de pista, ficou subordinado à Diretoria de Operações.
Responsabilidades
Carlos declarou à Polícia Federal que ficou insatisfeito com a mudança porque deixou de comandar uma área estratégica para a manutenção da frota.
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Apesar das versões divergentes, a Polícia Federal rejeitou a tentativa de transferência de responsabilidades. No relatório final, os investigadores destacaram que o organograma da empresa e o Manual Geral de Operações atribuíam ao diretor de Operações a obrigação de garantir que as aeronaves fossem utilizadas dentro dos limites técnicos e de segurança previstos para cada voo.
A investigação concluiu que Marcel tinha conhecimento de ocorrências semelhantes às que antecederam a queda do voo 2283. Segundo a Polícia Federal, problemas relacionados ao sistema de degelo da mesma aeronave já haviam sido registrados meses antes do acidente, mas nenhuma medida efetiva foi adotada para evitar que a situação se repetisse.
Omissão de falhas
Nos depoimentos, os dois ex-diretores negaram que houvesse orientação para que pilotos ou mecânicos deixassem de registrar problemas técnicos.
Marcel afirmou que o Centro de Controle Operacional dependia das informações repassadas pelas tripulações e que, sem registros de falhas, a empresa mantinha o planejamento normal dos voos. Carlos também negou qualquer orientação para esconder panes ou adiar registros de manutenção. Segundo ele, os mecânicos dependiam da documentação formal para realizar intervenções nas aeronaves.
A conclusão da Polícia Federal, no entanto, apontou a existência de uma cultura de não reporte dentro da companhia. O relatório cita depoimentos de pilotos, mecânicos e funcionários operacionais que relataram pressão para manter as aeronaves em operação e registrar problemas apenas quando os aviões retornavam à base principal, em Ribeirão Preto.
Essas conclusões ajudaram a embasar a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra 12 pessoas, entre elas os dois ex-diretores, que atualmente respondem à ação penal relacionada ao acidente.



