Dormir mal não é apenas consequência de uma rotina agitada ou de uma noite difícil. Alterações no sono também podem indicar problemas de saúde física e mental e, em alguns casos, antecipar a piora de quadros psiquiátricos, como depressão, ansiedade e transtorno bipolar.
Em entrevista à CBN Ribeirão, a médica pneumologista e especialista em medicina do sono, Flávia Guimarães, explicou que o sono funciona como um importante indicador do equilíbrio do organismo. Segundo ela, a privação de descanso pode provocar mudanças de humor, aumentar a irritabilidade e favorecer o desenvolvimento ou o agravamento de problemas de saúde mental.
A especialista também chamou a atenção para os efeitos da vida moderna sobre o relógio biológico. A exposição prolongada à luz de celulares e televisores, além de horários irregulares para dormir e acordar, pode prejudicar o funcionamento do organismo.
Relógio biológico
O relógio biológico humano funciona em ciclos de aproximadamente 24 horas e é regulado principalmente pela alternância entre luz e escuridão. Esse mecanismo organiza diferentes funções do organismo, como a liberação de hormônios e os ciclos dos sistemas respiratório, cardíaco e digestivo.
De acordo com Flávia, a exposição à luz artificial durante a noite pode confundir o cérebro, que passa a interpretar que ainda é dia. Com isso, o organismo tem dificuldade para reconhecer o momento adequado de iniciar o descanso e manter o funcionamento dos ciclos biológicos.
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A médica também explicou que pessoas que trabalham durante a noite podem ter dificuldades para adaptar o relógio biológico à rotina. Quando essa adaptação não acontece, podem surgir problemas como alterações gastrointestinais, ganho de peso, diabetes e pressão alta.
Sono e saúde mental
A relação entre sono e saúde mental pode funcionar nos dois sentidos: alterações no descanso podem agravar doenças psiquiátricas, mas também podem ser consequência delas. Segundo a especialista, pacientes com depressão, ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia podem apresentar mudanças no sono antes mesmo de uma descompensação do quadro.
A privação crônica de sono também prejudica o equilíbrio emocional. Flávia explicou que a primeira mudança percebida costuma ser a alteração de humor, seguida pelo aumento da irritabilidade e da ansiedade. Com a continuidade do problema, pode haver maior risco de depressão.
A médica ressaltou que acordar cansado, mesmo depois de passar várias horas na cama, também merece atenção. Nesses casos, é importante investigar possíveis causas, como a apneia do sono, caracterizada por interrupções da respiração durante a noite, e os movimentos periódicos dos membros, que provocam pequenos despertares.
O estresse também pode prejudicar a qualidade do descanso. Segundo Flávia, o cérebro reage às preocupações e às dificuldades cotidianas como se fossem ameaças externas, mantendo o organismo em estado de alerta e dificultando o aprofundamento do sono. Para identificar a origem do problema, a especialista considera importante avaliar o histórico do paciente e, quando necessário, realizar exames como a polissonografia, que permite investigar alterações durante o sono.
Hábitos para dormir melhor
A médica recomenda manter horários regulares para dormir e acordar, mesmo nos fins de semana. A regularidade ajuda a sincronizar o relógio biológico e a estabelecer um padrão de descanso. Outro cuidado é manter horários semelhantes para as refeições. Segundo Flávia, café da manhã, almoço e jantar também funcionam como referências para o organismo identificar os diferentes períodos do dia.
A especialista orienta ainda evitar bebidas e alimentos com cafeína, como café, refrigerantes à base de cola, chás mate, verde e preto e chocolate. Também recomenda reduzir a exposição à luz artificial antes de dormir. A orientação é deixar o celular de lado cerca de uma hora antes de deitar, diminuir a iluminação do ambiente e preparar um espaço confortável, com temperatura agradável e pouca luz.
Flávia reforçou que alterações persistentes no sono devem ser avaliadas por profissionais de saúde. A investigação é importante para identificar se o problema está relacionado a uma condição física, a um quadro de saúde mental ou aos dois fatores.



